quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Interrogante: O propósito de viver é apenas o de sermos capazes de lidar com a existência?

Krishnamurti: Você diz: "é este o propósito da vida?" - Mas por que você quer um propósito para a vida? - Viva! Viver é sua própria finalidade, por que você quer um propósito? Observe: cada um tem seu próprio propósito, o homem religioso o seu propósito, o cientista seu propósito, o homem de família o seu propósito e assim por diante; todos criando divisões. A vida de um homem que tem um propósito está produzindo violência. É tão claro e simples.

Fonte ( em Inglês): http://www.jiddu-krishnamurti.net/en/beyond-violence/1970-04-07-jiddu-krishnamurti-beyond-violence-violence
Por que você quer acreditar em alguma coisa? Por que você quer acreditar na unidade de todos os seres humanos? - Não estamos unidos, isso é um fato, por que você quer acreditar em algo que não é factual. Existe toda essa questão de crença; basta pensar: você tem sua crença e outro tem a crença dele, e nós lutamos e matamos uns aos outros por uma crença.

Você tem crenças porque está com medo? Não? Você acredita que o sol nasce? - Ele está lá para ver, você não tem que acreditar nisso. A crença é uma forma de divisão e, portanto, de violência. Ser livre de violência implica liberdade de tudo o que uma pessoa impõe a outra : crença, dogma, rituais, o meu país, o seu país, o seu Deus e meu Deus, a minha opinião, a sua opinião, o meu ideal. Tudo isso ajuda a dividir os seres humanos e, portanto, geram violência. E, embora as religiões organizadas tenham pregado a unidade da humanidade, cada religião pensa que é muito superior a outra.

Interrogante: Isso significa que aqueles que pregam a unidade estão realmente contribuindo com a divisão.

Krishnamurti: Muito bem, senhor.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Autoconhecimento
O pensar correto não é para ser descoberto através dos livros, através do assistir a umas poucas palestras, ou por escutar meramente algumas idéias de pessoas sobre o que é o pensar correto. O pensar correto é para ser descoberto por nós mesmos através de nós mesmos. O pensar correto vem com o autoconhecimento. Sem autoconhecimento não existe pensar correto.
Sem conhecer-se a si mesmo, o que você pensa e o que sente não pode ser verdadeiro. A raiz de todo entendimento encontra-se no entendimento de si mesmo. Se você pode descobrir quais são as causas de seu pensamento-sentimento, e a partir desta descoberta, saber como pensar-sentir, então existe o começo do entendimento. Sem conhecer-se a si mesmo, a acumulação de idéias, a aceitação de crenças e teorias não têm base. Sem conhecer-se a si mesmo, você sempre será pego na incerteza, dependendo do humor, das circunstâncias. Sem entender-se a si mesmo completamente, você não pode pensar corretamente. Com certeza isto é óbvio. Se eu não sei quais são os meus motivos, minhas intenções, meu “background” (fundo), meus pensamentos-sentimentos particulares, como é que posso concordar ou discordar de outra pessoa? Como posso avaliar ou estabelecer minha relação com outra pessoa? Como posso descobrir qualquer coisa da vida se não conheço a mim mesmo? E conhecer a mim mesmo é uma tarefa enorme, que requer observação constante, uma vigilância meditativa.
Esta é nossa primeira tarefa, mesmo antes do problema da guerra e da paz, dos conflitos econômicos e sociais, da morte e da imortalidade. Estas questões vão surgir, elas hão de surgir, mas na descoberta de nós mesmos, no entendimento de nós mesmos, estas questões serão respondidas corretamente. Assim, aqueles que são realmente sérios nestas questões devem começar por eles mesmos, a fim de entender o mundo do qual são uma parte. Sem entender-se a si mesmo você não pode entender o todo. O autoconhecimento é o começo da sabedoria. É cultivado pela busca individual de si mesmo. Não estou colocando o indivíduo em oposição à massa (ao coletivo). Eles não são antíteses. Você, o indivíduo, é a massa, é o resultado da massa. Se entrar dentro disto profundamente, você irá descobrir por si mesmo. que você é tanto o coletivo quanto o individual. É como um córrego que está constantemente fluindo, deixando pequenos redemoinhos, e a estes redemoinhos chamamos de individualidade, mas eles são o resultado desse constante fluxo de água. Seus pensamentos-sentimentos, aquelas atividades mentais-emocionais, não são o resultado do passado, do que chamamos a multiplicidade?
Você não tem pensamentos-sentimentos similares aos do seu vizinho? Assim, quando falo de indivíduo, não o estou colocando em oposição à massa, ao coletivo. Ao contrário, quero remover este antagonismo. Este antagonismo que coloca em oposição a massa e você, indivíduo, cria confusão e conflito, crueldade e miséria. Mas se pudermos entender como o indivíduo, você, é parte do todo, não apenas misticamente, mas realmente, então nos libertaremos de modo feliz e espontâneo, da maior parte do desejo de competir, de ter sucesso, de iludir, de oprimir, de ser cruel, ou de se tomar um seguidor ou um líder. Então veremos o problema da existência de modo diferente. E é importante entender isto profundamente.
Enquanto nos virmos como indivíduos, separados do todo, competindo, obstruindo, em oposição, sacrificando o coletivo pelo particular, ou sacrificando o particular pelo coletivo, todos aqueles problemas que surgem deste conflitante antagonismo não terão solução feliz e duradoura, pois são o resultado do pensar-sentir incorreto. Agora, quando falo sobre o indivíduo, não o estou colocando em oposição à massa. O que eu sou? Sou um resultado – sou o resultado do passado, de inúmeras camadas do passado, de uma série de causas-efeitos. E como posso estar em oposição ao todo, ao passado, quando sou o resultado daquilo tudo? Se eu, que sou a massa (o coletivo), se não entender a mim mesmo, não apenas entender o que está fora da minha pele, objetivamente, mas subjetivamente, dentro da pele, como posso entender outra pessoa, o mundo? Entender a si mesmo requer desapego amável e tolerante.
Se você não entender a si mesmo, não entenderá nada mais. Pode ter grandes ideais, crenças e fórmulas, mas elas não terão realidade. Serão enganos. Assim, você deve conhecer-se a si mesmo para entender o presente – e através do presente, o passado. Do presente conhecido, as camadas escondidas do passado são descobertas, e esta descoberta é libertadora e criativa. O autoconhecimento requer um estudo objetivo, amável, desapaixonado de nós próprios – nós próprios sendo o organismo como um todo, nosso corpo, nossos sentimentos, nossos pensamentos. Eles não estão separados, mas interligados. É somente quando entendemos o organismo como um todo que podemos ir além – e podemos descobrir coisas mais adiante, maiores, mais vastas.
Mas sem este entendimento primário, sem colocar o alicerce correto para o pensar correto, não podemos prosseguir para alturas maiores. Torna-se essencial produzir em cada um de nós a capacidade de descobrir o que é verdadeiro, pois o que é descoberto é libertador, criativo. Pois o que é descoberto é verdadeiro. Ou seja, se meramente nos conformarmos a um padrão do que deveríamos ser, ou cedermos a um anseio, produziremos certos resultados conflitantes, confusos. Mas no processo do nosso estudo de nós mesmos, estamos numa viagem de autodescoberta, o que traz alegria.
Existe uma certeza no pensar-sentir negativo em vez do pensar-sentir positivo. De uma maneira positiva supomos o que somos, ou cultivamos positivamente nossas idéias em relação a outras pessoas, ou em relação a nossas próprias formulações. E, portanto, dependemos de autoridade, de circunstâncias, esperando com isto estabelecer uma série de idéias e ações positivas. Ao passo que se você examina, verá que existe concordância na negação; existe certeza no pensar negativo, que é a mais alta forma de pensar. Quando você descobrir a negação verdadeira e a concordância na negação, então poderá construir mais adiante no positivo. A descoberta que reside no autoconhecimento é árdua, pois o começo e o fim estão em nós.
Buscar felicidade, amor, esperança fora de nós, leva-nos à ilusão, ao sofrimento; encontrar felicidade, paz, alegria dentro (de nós) requer autoconhecimento. Somos escravos das pressões imediatas e exigências do mundo, e somos desviados por tudo isso e dissipamos nossas energias em tudo isso, e assim temos pouco tempo para estudar a nós mesmos. Estarmos profundamente cientes de nossos motivos, de nossos desejos de alcançar, de vir-a-ser, exige constante atenção interna. Sem o entendimento de nós mesmos, mecanismos superficiais de reforma social e econômica, mesmo que necessários e benéficos, não irão produzir unidade no mundo, mas somente maior confusão e miséria. Muitos de nós pensamos que a reforma econômica de uma ou outra forma vai trazer paz ao mundo; ou que a reforma social, ou uma religião especializada conquistando todas as outras vai trazer felicidade ao homem.
Acredito que haja algo como oitocentas ou mais seitas religiosas neste país, cada uma competindo, fazendo proselitismo. Vocês pensam que uma religião competitiva vai trazer paz, unidade e felicidade à humanidade? Pensam que qualquer religião especializada seja o Hinduísmo, o Budismo ou o Cristianismo, vai trazer paz? Ou devemos colocar de lado todas as religiões especializadas e descobrir a realidade por nós mesmos? Quando vemos o mundo explodido por bombas e sentimos os horrores que estão acontecendo nele; quando o mundo está fragmentado por religiões, nacionalidades, raças e ideologias separadas, qual é a resposta a tudo isso? Não podemos apenas continuar vivendo uma vida curta e morrendo – e esperar que algum bem, advenha disso.
Nós não podemos deixar isso para os outros – trazer felicidade e paz à humanidade, pois a humanidade somos nós mesmos, cada um de nós. Onde se encontra a solução, senão em nós mesmos? Descobrir a resposta real requer profundo pensamento-sentimento e poucos de nós estão dispostos a resolver essa miséria. Se cada um de nós considerar esse problema como jorrando de dentro – e não ser meramente conduzido nessa confusão e miséria pavorosa, então iremos encontrar uma resposta simples e direta. No estudo e, assim, no entendimento de nós mesmos, virá claridade e ordem. E só pode haver claridade no autoconhecimento, que nutre o pensar correto.
O pensar correto vem antes da ação correta. Se nos tornarmos conscientes de nós mesmos e assim cultivarmos o autoconhecimento de onde jorra o pensar correto, então criaremos um espelho em nós que refletirá, sem distorções, todos os nossos pensamentos-sentimentos. Estar assim autoconscientes é extremamente difícil, já que nossas mente estão acostumadas a divagar e a estar distraídas.
Suas divagações, suas distorções são de seu próprio interesse, suas próprias criações. No entendimento disto – e não meramente colocando isto de lado – vem o autoconhecimento e o pensar correto. É apenas por inclusão e não por exclusão, não por aprovação ou condenação ou comparação, que vem o entendimento.
J. Krishnamurti em palestra realizada em Ojai, Califórnia, EUA, 1944




sexta-feira, 9 de agosto de 2013







S
OU ABSOLUTAMENTE LIVRE, O QUE TIVER DE DIZER EU DIGO

“Tudo o que eu tiver de dizer, eu o digo, pois não tenho nenhuma obrigação em relação a ninguém, não tenho nenhum compromisso com ninguém; não pertenço a nenhuma linha partidária. Sou absolutamente livre para ser engraçado, para ser chocante...

Eu nem me importo em me contradizer, pois, para mim, uma pessoa que permanece consistente por toda a sua vida deve ser uma idiota. Uma pessoa em crescimento precisa se contradizer muitas vezes, pois quem sabe o que o amanhã trará? O amanhã pode cancelar completamente este dia, e estou pronto a seguir com a vida sem qualquer hesitação.”

- entrevista que Osho concedeu à mídia mundial, em 1985, quando estava nos Estados Unidos.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O homem é o único animal a ser temido.

Vimos um pássaro morrendo, ferido por um homem. Ele voava com uma batida rítmica e lindamente, com liberdade e sem medo. E a arma o acertou; caiu na terra e toda a vida saiu dele. Um cão foi buscá-lo, e o homem juntou outros pássaros mortos. Ele conversava com um amigo e parecia completamente indiferente. Tudo que interessava a ele era abater muitos pássaros e para ele bastava. Estão matando no mundo todo. Aqueles maravilhosos, grandes animais do mar, as baleias, são mortas aos milhões, e o tigre e muitos outros animais estão agora se tornando espécies em extinção. O homem é o único animal a ser temido.

- Krishnamurti

http://goo.gl/T6dHNA
 
Só observação.

Interrogante: Você nos diz para observarmos nossas ações na vida diária, mas qual é a entidade que decide o que observar e quando? Quem decide se a pessoa deveria observar?

Krishnamurti: Você decide observar? Ou você simplesmente observa? Você decide e diz, “Eu vou observar e aprender”? Porque então vem a pergunta: “Quem está decidindo?” É a vontade que diz, “Eu devo”? E quando isto falha, ela se castiga e diz, “Eu devo, devo, devo; nisso há conflito; portanto, o estado da mente que decidiu observar não é de fato observação. Você está andando por uma rua, alguém passa por você, você observa e pode dizer para si mesmo, “Como ele é feio; como ele cheira; quero que ele não faça isso ou aquilo”. Você está consciente de suas reações ao passante, está consciente que está julgando, condenando ou justificando; você está observando. Você não diz, “Eu não devo julgar, não devo justificar”. Ao estar consciente de suas reações, não há de fato decisão. Você vê alguém que lhe insultou ontem. Imediatamente você está pronto para a luta, fica nervoso ou ansioso, começa a não gostar; estar consciente de seu desgosto, estar consciente de tudo isso, não “decidir” estar consciente. Observar, e nessa observação não há nem o “observador” nem o “observado” – existe apenas a observação acontecendo. O “observador” só existe quando você acumula na observação; quando diz, “Ele é meu amigo porque me elogiou”, ou, “Ele não é meu amigo, porque disse alguma coisa desagradável sobre mim, ou alguma coisa verdadeira de que não gosto”. Isso é acumulação através da observação e essa acumulação é o observador. Quando você observa sem acumulação, então não há julgamento. Você pode fazer isto o tempo todo; nessa observação naturalmente certas decisões definidas são tomadas, mas as decisões são resultados naturais, não decisões feitas pelo observador que acumulou.

J.Krishnamurti - http://goo.gl/Apmfl2
 
Você se torna a coisa com que luta.

Certamente você se torna a coisa com que luta. Se estou com raiva e você me encontra com raiva, qual é o resultado? Mais raiva. Você se tornou aquilo que eu sou. Se eu sou mau e você luta comigo com mal então você também se torna mau, conquanto correto possa sentir. Se eu sou bruto e você usa métodos brutais para me dominar, então você se torna bruto como eu. E isto nós fizemos durante milhares de anos. Certamente existe uma abordagem diferente de enfrentar o ódio com ódio. Se uso métodos violentos para subjugar a raiva em mim mesmo então estou usando meios errados para um fim correto, e por isso o fim certo deixa de existir. Nisto não há compreensão; não transcender a raiva. A raiva é para ser estudada tolerantemente e compreendida; não é para ser dominada por meios violentos. A raiva pode ser resultado de muitas causas e sem compreendê-las não há libertação da raiva.
Nós criamos o inimigo, o bandido, e nos tornarmos o inimigo de modo algum leva a um fim da animosidade. Temos que compreender a causa da animosidade e parar de alimentá-la com nosso pensamento, sentimento e ação. Esta é uma tarefa árdua que exige constante conscientização e inteligente flexibilidade, pois o que somos a sociedade, o estado é. O inimigo e o amigo são o resultado de nosso pensamento e ação. Somos responsáveis por criar animosidade e assim é mais importante estar consciente de nosso próprio pensamento e ação do que estar preocupado com o adversário e o amigo, porque o pensamento correto põe fim à divisão. O amor transcende o amigo e o inimigo.

-J.Krishnamurti, The Book of Life.

http://goo.gl/2hp1D3