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quarta-feira, 17 de julho de 2013

"“....Direi a você qual é a maior, a principal causa de cerca de dois terços dos males que perseguem a humanidade desde que esta causa se tornou um poder. É a casta sacerdotal, o clero e as igrejas; é nestas ilusões que o homem vê como sagradas, que ele deve procurar a fonte daquele sem-número de males, que é a grande maldição da humanidade e que quase domina totalmente o gênero humano. A ignorância criou os Deuses e a astúcia aproveitou a oportunidade. Veja a Índia, veja a Cristandade, o Islamismo, o Judaísmo e o fetichismo. Foi a impostura dos cleros que fez com que estes Deuses passassem a ser tão terríveis para o homem; é a religião que o transforma no beato egoísta, no fanático que odeia toda a humanidade fora da sua própria seita, sem torná-lo em nada melhor ou mais moral por isso. É a crença em Deus e nos Deuses que faz de dois terços da humanidade escravos de um punhado daqueles que os enganam com o falso pretexto de salvá-los. O homem não está sempre pronto a cometer qualquer tipo de maldade se lhe disserem que seu Deus ou Deuses exigem o crime – vítima voluntária de um Deus ilusório, escravo abjeto de seus ministros astuciosos? Os camponeses irlandeses, italianos e eslavos passarão fome, e verão suas famílias famintas e sem roupa, para alimentar e vestir seu padre e seu papa. Durante dois mil anos a Índia gemeu sob o peso das castas, com os brâmanes engordando só a si mesmos com o melhor da terra, e hoje os seguidores de Cristo e os de Maomé estão cortando as gargantas uns dos outros em nome – e para maior glória – dos seus respectivos mitos. Lembre que a soma da miséria humana nunca será diminuída até aquele dia em que a parte melhor da humanidade destruir, em nome da Verdade, da moralidade e da caridade universal, os altares dos seus falsos deuses"

("Cartas dos Mahatmas para A.P.Sinnett")

quarta-feira, 10 de julho de 2013

São os que creem em Deus, que pregam a paz e falam de amor, que criaram a selva humana. Comparada com a selva do homem, a selva da natureza é simples e sensível! Na natureza, os animais não matam sua própria espécie. Isso faz parte da beleza da natureza. A este respeito, o homem é pior do que os outros animais. O chamado homem "civilizado" mata por ideais e crenças, enquanto os animais só matam para sobreviver.

UG
Pergunta: Se rebentasse uma guerra amanhã e a lei de recrutamento entrasse em vigor de imediato para o obrigar a pegar nas armas, alistar-se-ia no exército e gritaria; “às armas, às armas!” como os líderes da Sociedade Teosófica fizeram em 1914, ou opunha-se à guerra?
Krishnamurti: Não nos preocupemos com o que os líderes Teosóficos fizeram em 1914. Onde há nacionalismo tem que haver guerra. Onde há vários governos soberanos tem que haver guerra. É inevitável. Pessoalmente eu não me ligaria a actividades de guerra de nenhuma espécie porque não sou nacionalista, não tenho espírito de classes, nem sou possessivo. Não me alistaria no exército nem ajudaria de qualquer forma. Não me juntaria a qualquer organização que existisse apenas com o propósito de curar os feridos e mandá-los de volta para o campo de batalha para serem feridos outra vez. Mas chegaria a um acordo sobre estes assuntos antes que a guerra ameaçasse.
Agora, pelo menos de momento, não há nenhuma guerra efectiva. Quando a guerra chega, faz-se propaganda inflamada, contam-se mentiras sobre o suposto inimigo; o patriotismo e o ódio são fomentados, as pessoas perdem a cabeça na suposta devoção ao seu país. “Deus está do nosso lado”, gritam, “e o diabo com o inimigo”. E durante os séculos têm gritado estas mesmas palavras. Ambos os lados lutam em nome de Deus; em ambos os lados os sacerdotes abençoam – ideia maravilhosa – o armamento. Agora até abençoarão os bombardeiros, tão consumidos estão por esse doença que cria a guerra: o nacionalismo, a sua própria classe ou a segurança individual. Portanto, enquanto estamos em paz – embora “paz” seja uma palavra estranha para descrever a mera cessação das hostilidades armadas – enquanto não estamos, em qualquer caso, realmente a matar-nos uns aos outros no campo de batalha, podemos compreender quais são as causas da guerra, e desembaraçar-nos dessas causas. E se forem claros na vossa compreensão, na vossa liberdade, com tudo o que essa liberdade implica, que podem ser mortos a tiro por se recusarem a seguir a mania da guerra – então agirão verdadeiramente quando o momento chegar, seja qual for a vossa acção.

Portanto a questão não é o que farão quando a guerra chegar, mas o que estão agora a fazer para impedir a guerra. Vocês que estão sempre a gritar-me devido à minha atitude negativa, o que estão a fazer para exterminar a própria causa da guerra? Estou a falar da verdadeira causa das guerras, não somente da guerra imediata que inevitavelmente ameaça enquanto cada nação armazena armamento. Enquanto existir o espírito do nacionalismo, o espírito da diferença de classes, da particularidade e da possessividade, tem que haver guerra. Não a podem evitar. Se realmente estiverem a enfrentar o problema da guerra, como deveriam estar agora, terão que tomar uma acção definitiva, uma acção definitiva e positiva; e pela vossa acção ajudarão a despertar a inteligência, que é a única medida preventiva para a guerra. Mas para o fazerem, têm que se libertar desta doença do “o meu Deus, o meu país, a minha família, a minha casa.”

Jiddu Krishnamurti




terça-feira, 9 de julho de 2013

É o passado que projetou estes objetivos - Deus, iluminação, paz mental, o que quer seja - e colocou-os no futuro, fora do alcance. Então, a felicidade é sempre no futuro, amanhã. Um homem feliz não estaria interessado em buscar a felicidade. Um homem bem alimentado não está em busca de comida.

U.G.

sábado, 8 de junho de 2013

Krishnamurti — Sobre a crença em Deus

Pergunta: A crença em Deus foi sempre poderoso incentivo para uma vida melhor. Por que negais a Deus? Por que não procurais reanimar a fé do homem na ideia de Deus?

krishnamurti: Consideremos este problema com amplitude e de maneira inteligente. Eu não nego Deus; seria absurdo fazê-lo. Só o homem que não conhece a realidade se entretém com palavras sem significação. O homem que diz que sabe, não sabe. O homem que conhece a realidade, momento por momento, não tem meios de comunicar essa realidade. A crença é negação da verdade, a crença é um obstáculo à verdade; crer em Deus não é achar a Deus. Nem o crente nem o descrente acharão a Deus. Porque a realidade é o desconhecido, e vossa crença ou descrença do desconhecido é simples autoprojeção, e por conseguinte não é real. Sei que credes e sei que isso tem muito pouca significação na vossa vida. Há muitas pessoas que creem; milhões creem em Deus e encontram consolo nisso. Em primeiro lugar, por que credes? Credes porque isso vos dá satisfação, consolo, esperança, e dizeis que essas coisas dão sentido à vida. Na realidade, vossa crença tem muito pouca significação, porque credes e explorais.
Credes e matais, credes em um Deus universal e vos assassinais mutuamente. O rico também crê em Deus; explora impiedosamente, acumula dinheiro, e depois manda construir uma igreja ou se torna filantropo.

Os homens que lançaram a bomba atômica sobre Hiroxima disseram que Deus os acompanhava; os que voavam da Inglaterra para destruir a Alemanha, diziam que Deus era seu co-piloto. Os ditadores, os primeiros ministros, os generais, os presidentes, todos falam de Deus e têm fé imensa em Deus. Estão prestando algum serviço tornando melhor a vida do homem? As mesmas pessoas que dizem crer em Deus, devastaram a metade do mundo, e o deixaram em completa miséria. A intolerância religiosa, dividindo os homens em fiéis e infiéis, conduz a guerras religiosas. Isso mostra nosso estranho senso político.

A crença em Deus é "poderoso incentivo para uma vida melhor" ? Por que precisais de um incentivo para viver melhor? Ora, por certo, vosso incentivo deve ser vosso próprio desejo de viver com pureza e simplicidade, não achais? Se conferis tanta importância ao incentivo, não estais interessado em tornar a vida possível para todos: estais interessado unicamente no vosso in­centivo, que é diferente do meu incentivo — e brigaremos por causa dos nossos incentivos. Se vivemos felizes e unidos, não porque cremos em Deus, mas porque somos humanos, compartilharemos os diferentes meios de produção, a fim de produzirmos, para todos, as coisas necessárias. Em virtude da nossa falta de inteligência, aceitamos a ideia de uma superinteligênda, a que chamamos Deus; mas esse Deus, essa superinteligência, não nos dará uma vida melhor. O que conduz a uma vida melhor é a Inteligência; e não pode haver inteligência se há crenças, se há divisões de classes, se os meios de produção se encontram nas mãos de poucos, se há nacionalidades isoladas e governos soberanos. Tudo isso indica, por certo, evidente falta de inteligência, e é isso que nos está privando de uma vida melhor, e não a falta de crença em Deus.

Todos vós credes, de diferentes maneiras, mas vossa crença não tem realidade alguma. A realidade é o que sois, o que fazeis, o que pensais, e vossa crença em Deus é apenas uma fuga do vosso viver monótono, estúpido, e cruel. Além disso, a crença, invariavelmente, separa os homens: temos o hinduísta, o budista, o cristão, o comunista, o capitalista, etc. A crença, a ideia, divide, não une os homens. Será possível unir certo número de pessoas em um grupo, mas este grupo se oporá a outro grupo. Ideias e crenças nunca são unificadoras, ao contrário, são fatores de desavença, desintegração e ruína. Por conseguinte, vossa crença em Deus só está, na verdade, espalhando misérias pelo mundo. Ainda que vos tenha trazido momentâneo conforto, na realidade ela trouxe mais sofrimentos e mais destruição, sob a forma de guerras, fome, divisões de classe, e as crueldades de certos indivíduos. Vossa crença, pois, é sem eficácia. Se deveras crêsseis em Deus, se isso fosse uma experiência real, vossos semblantes irradiariam afeto, e não estaríeis destruindo vossos semelhantes.

Mas, que é a realidade, que é Deus? Deus não é a palavra; a palavra não é a coisa. Para conhecer aquilo que é imensurável, independente do tempo, a mente deve estar livre do tempo, o que significa que deve estar livre de todo pensamento, de todas as ideias relativas a Deus. Que sabeis de Deus ou da verdade? De fato nada sabeis daquela realidade. O que conheceis são só palavras, experiências de outrem, ou alguns momentos de experiências um tanto vagas, de vós mesmos. Isso, naturalmente, não é Deus, não é a realidade, não está fora da esfera do tempo. Para conhecer o que está além do tempo, é preciso compreender o processo do tempo, sendo o tempo pensamento, processo de "vir a ser", acumulação de conhecimentos. Aí está todo o fundo que constitui a mente; a mente, ela própria, é o fundo, consciente e inconscientemente, coletiva e individualmente. A mente, por conseguinte, deve estar livre do conhecido, o que significa que deve estar de todo silenciosa, sem ter sido posta em silêncio. A mente que alcança o silêncio como resultado, como consequência de determinada ação, exercício, disciplina, não é mente silenciosa. A mente que é constrangida, controlada, moldada, posta numa forma e obrigada a ficar quieta, não é mente tranquila. Podeis conseguir, por certo período de tempo, forçar a mente a um silêncio superficial, mas essa mente não é tranquila. A tranquidade só pode vir quando se compreende todo o processo de pensamento, porque, compreender o processo é pôr-lhe fim, e o fim do processo de pensamento é o começo do silêncio.

Só quando a mente se acha em silêncio completo, não só na superfície, mas no fundo, de ponta a ponta, tanto nos níveis superficiais como nos níveis mais profundos da consciência — só então pode o desconhecido manifestar-se na existência. O desconhecido não é passível de ser experimentado pela mente; só o silêncio pode ser experimentado; nada mais senão o silêncio. Se a mente experimenta algo que não seja silêncio, está apenas projetando seus próprios desejos e portanto não está em silêncio; enquanto a mente não está silenciosa, enquanto o pensamento, sob qualquer forma, consciente ou inconsciente, se acha em movimento, não pode haver silêncio. Silêncio é liberdade, é estar livre do passado, do saber, da memória, tanto consciente como inconsciente. Quando a mente está silenciosa de todo, quando não está em uso, quando há o silêncio que não é produto de esforço, só então se manifesta o atemporal, o eterno. Esse estado não é um estado de lembrança; não há nele entidade que se recorda, que experimenta.

Por consequência, Deus ou a verdade — ou como quiserdes chamá-lo — é algo que se manifesta de momento a momento, e isso só pode acontecer num estado de liberdade e espontaneidade, e não quando a mente foi disciplinada, de acordo com uma padrão. Deus não é produto da mente, não é resultado de autoprojeção; só pode surgir quando há virtude, que é liberdade. Virtude é enfrentar o fato, o que é. E enfrentar o fato é um estado de bem-aventurança. Só quando a mente está repleta de felicidade, tranquila, imóvel, sem nenhuma projeção de pensamento, consciente ou inconsciente — só então se manifesta o Eterno.

Krishnamurti
A Primeira e Última Liberdade