Para ir além das atividades auto-enclausuradas da mente, você deve entendê-las; e entendê-las é estar cônscio da ação nas relações, relações com as coisas, as pessoas, e as ideias. Nessa relação, que é o espelho, começamos a ver a nós mesmos, sem nenhuma justificativa ou condenação; e desse conhecimento mais amplo e profundo dos caminhos de nossa própria mente, é possível ir adiante; então é possível para a mente estar quieta, receber aquilo que é real.
Por favor, esta questão é muito séria, não é só uma proposição casual, argumentativa. Esta é uma investigação acerca de que lugar ocupam o conhecimento, a experiência, as recordações acumuladas, na relação. Tenham a bondade de responder a isto vocês mesmos, não olhem para mim. Se você diz: “Conheço a minha esposa — ou outra forma de relação intima —, já colocou esta pessoa dentro da estrutura de seu conhecimento acerca dela. Por conseguinte, esse conhecimento se torna o processo divisor. Você tem vivido com sua esposa, sua noiva ou o que for, e tem acumulado informação. Tem recordado as penosas declarações que ela tenha feito ou que você as fez; existe todo esse desenvolvimento da memória que dá forma a uma imagem, a qual interfere na relação com a outra pessoa. Correto? Por favor, observem isto em si mesmos. E ela está fazendo exatamente a mesma coisa. Nos perguntamos, pois: Que lugar ocupa o conhecimento na relação? O conhecimento é amor? Posso conhecer a minha esposa: sua aparência, o modo como se comporta, certos hábitos que possui, etc. Isso é bastante óbvio. Porém, por que devo dizer “conheço”? Quando digo que a conheço já limitei minha relação. Não sei se o compreendem. Já criei um bloqueio, uma barreira entre nós dois.
Krishnamurti – Brockwood Park, Inglaterra, 2 de setembro de 1982